E o Abaporu?

Há (quase) cinco décadas, o jovem Adão Iturrusgarai aparecia pela primeira vez em um jornal

Matheus Lopes Quirino

Escuta-se um solo do Miles do fundo da sala, uma rola, ops, rolha estoura de uma garrafa chique de vinho. Risadas altas e recheadas de onomatopeias, peitos e narizes e pipis, pênis, pintos, pajubás, etc. E qualquer objeto fálico. Político raivoso, cão que ladra contra gato, que faz piada contra rato. E mais risada. Filosofia, alucinógenos, “Dr. Quanto tempo eu tenho?”: o de um churrasco! E diz Adão, “A vida não é mole nem dura, ela é al dente”. O leitor sagaz já sabe onde estamos. Este é o universo da tira de Adão Iturrusgarai.

Aos 55 anos, Adão goza de uma reputação tri bacana, como dizem em sua terra natal, a miúda Cachoeira do Sul (RS). Promessa daquela terra onde muito se planta e come arroz, ele nasceu “Com o cu virado para a lua”, lhe disse uma vizinha certa vez quando, aos 6 anos, o pequeno Adão debutou em um jornal. Talvez fosse a primeira caricatura de si mesmo, estampada no diário local por ganhar um aparelho de toca-discos laranja. Sua sorte veio talhada em um palito premiado de um picolé de coco da Kibon, comprado em um posto de gasolina perto de sua casa. Hoje, quase 50 anos depois do feito, Adão tem um espaço fixo no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, além de colaborar com várias publicações.

Entre o pinball do fliperama de Cachoeira do Sul, enlameados jogos de futebol e os quadrinhos de Tom & Jerry e A pantera cor de rosa – que, na verdade era preta e branca na televisão daquela época –, Adão teve uma infância analógica, rabiscando, brincando com a molecada da vizinhança e até arrumando briga por causa de figurinhas. Impensável comportamento para a geração condomínio de hoje.

Ainda moço ele deixou sua terra natal para cursar Publicidade e Propaganda na PUC em Porto Alegre, no ano seguinte, começou o curso de artes plásticas na UFRGS; aos poucos, à época se ambientando na rotina cultural e cosmopolita de uma capital nos anos 1980, sua vida ia tomando o rumo certo e o sucesso, ao contrário de tantos alcoólicos anônimos, deu as caras pela primeira vez em um bar.

Foi quando conheceu o escritor (e também cartunista) Luís Fernando Veríssimo. Através de um habitué do boteco universitário que frequentava, um esquisitão de capa conhecido como Alemão, não demorou para o jovem Adão ligar à casa do escritor com o coração na boca. E deu certo. Recebido por Veríssimo, ele conseguiu arrancar risos do mestre, que fez sua ponte com outro gigante das histórias em quadrinhos, o Angeli. Naquela época de ouro (os anos 1980), Veríssimo publicou em sua coluna no jornal Zero Hora uma tira de Adão Iturrusgarai. Era o retorno do jovem Adão às páginas de um diário, e lá ele está até hoje.

“Em alguns momentos eu não tive dinheiro para comer, nem para pegar um ônibus. Hoje me sinto privilegiado como artista. Não sou rico, mas vivo bem. Tem que trabalhar bastante.”, diz o cartunista, durante nosso troca-troca de e-mails e telefonema. Adão é conhecido pelas tiras fanfarronas, escrachadas, que são recheadas de piadas infames e bastante humor negro. “Dá para fazer piada sobre tudo. Eu acho que o humor não deve ter limites. Mas o humor acaba evoluindo como evolui a sociedade. Algumas piadas ficam datadas, outras envelhecem mal e tem aquelas que perdem a graça”, diz ele.

Adão fala de tudo, vale até futebol e religião, embora não seja um devoto das escrituras do primeiro Adão, cairia melhor um livrinho caliente, escrito por Xico Sá, conhecido como Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias. Obra diminuta de magnânima putaria, que certamente se encontra em alguma gaveta de cabeceira da personagem Aline, uma das mais célebres de Adão.

Fogosa e  versátil, sua criação não partiu de costela alguma, Aline merece o título de mulher empoderada, feminista raiz, por quebrar tabus e dizer os maiores absurdos. Adão adora colocar suas personagens em situações besuntadas de nanquim libidinal, além, claro, de meter o pau na política e na sociedade. Sexo. “Sendo consentido, a partir daí vale tudo”, pondera o cartunista. E em seu universo tudo é consentido.

Adão não está nem aí para o politicamente correto, ele acredita que o humor não deve ter limites, embora assuma que existem coisas que envelhecem mal. “Acho ruim quando é um movimento exagerado [sobre o politicamente correto]. Ricky Gervais disse: rir de algo horrível não transforma você em uma pessoa horrível. O humor é um espelho da sociedade. E a sociedade é bastante falha, preconceituosa e malvada.”

(Quase) Tudo pela audiência. Conhecido pelas suas histórias de sacanagem nas tiras publicadas diariamente na Ilustrada, Adão tem hoje mais de 30 mil seguidores no Instagram. Para alguém que, como ele mesmo diz, faz parte de uma Era Analógica, a presença nas redes sociais tem rendido um novo (e jovem) público, além, é claro, de alguns pentelhos que lhe enchem o saco. Há algumas semanas, uma saga surgiu a partir de um in box chegado pela rede social, quando um representante dos herdeiros da pintora Tarsila do Amaral foi reivindicar os direitos sobre o quadro Abaporu, de 1928.

Abaporu. “O quadro parece um cartum e o personagem, um personagem de quadrinhos. Acho divertido fazer as paródias e os trocadilhos. Faço muito isso com outras referências.”, diz o cartunista. Suas releituras a partir do clássico da arte modernista renderam telas como o Abbaporu, em referência à banda dinamarquesa Abba, que nos anos 1970 e 1980 emplacou hits mundiais como “Mamma mia” e “Dancing Queen”; mas também Abowieporu, em homenagem ao ídolo David Bowie, cujos talento musical e a androginia são sua marca registrada. Há também uma versão do quadro intitulada Rabaporu, inspirada nas capas da revista masculina Playboy, além claro das versões de personagens como Snoopy a Pluto – respectivamente Snooporu, Abbapopluto, entre outros tantos.

Engana-se quem acha que Adão, o primeiro homem a fazer releituras radicais do Abaporu, deu-se por vencido. “Cheguei a conversar com minha advogada e ficamos em prontidão. Mas releituras e paródias estão livres. Até agora não deu em nada”, diz ele, que segue criando, semanalmente, telas inspiradas não só em Tarsila, como no quadro A traição das imagens, o antológico cachimbo do pintor surrealista René Magritte que leva a frase Ceci n’est pas une pipe.

No juridiquês, paródias e releituras de obras consagradas são permitidas. No entanto, a obra O Abaporu entra em domínio público em 2043, consumando 70 anos da morte de Tarsila. As obras da pintora possuem um mercado, suas gravuras são estampas de marcas internacionais e nacionais, como Havaianas, mas a história aí é outra.

Pipe, em francês pode significar tanto cachimbo quanto pênis. Objeto de desenho do cartunista, ele confessa: “Sempre fiz muita piada com pênis, cu, buceta, sexo em geral. Algumas fases são mais obsessivas. Sei lá, tenho essa fixação. Poderia ser por dinheiro, carros ou livros. O engraçado é que isso não transparece tanto nas minhas pinturas nem nos meus textos [do Correio Elegante, sua newsletter semanal]”.

Nos finalmentes, além de ser um cronista da imagem e um dos mais importantes cartunistas da imprensa brasileira, entre as lições do Dr. Rock´n Roll Keith pop em tempos de Coronavírus, a escrita de sua newsletter semanal e muito trabalho, Adão revela-se um talento também nos haicais, respondendo a última pergunta (O que é a vida?) em versos de dar inveja a Guilherme de Almeida.

A vida é um sopro

um solo do Miles

ou um simples peido

Adão

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