Nunca mais eu vou dormir

Talvez eu queira dormir por um ano e acordar em um mundo no qual a Covid-19 foi erradicada, diz a autora de Meu ano de descanso e relaxamento

Isabella Marzolla*, Especial para Fina

O ano já está quase acabando – para o alívio de muitos – mas quase tudo circunscrito na vida foi posto à prova, inclusive nossa saúde mental. O livro de Ottessa Moshfegh, aclamado como um dos melhores romances americanos de 2019, acidentalmente descreve o que muitos sentem vontade de fazer em 2020: hibernar por um ano.

É o caso da desiludida protagonista de Meu ano de descanso e relaxamento, um drama com toques de humor ácido que aborda as desventuras da saúde mental e o desejo de alienação em tempos de excesso de informação. Ambientado na virada do ano 2000, em um apartamento no Upper East Side, pouco antes do 11 de setembro, a protagonista – que também é a narradora – jovem, recém- formada na universidade de Columbia, trabalha em uma galeria enquanto tenta processar a morte de seus pais à base de tarjas pretas duvidosas –  pílulas de Stilnox, lítio, Infermiterol, etc. – para se abster completamente da sociedade.

Ela não lê jornais, fica em casa, se isola do mundo exterior. Ottessa Moshfegh nasceu em Boston em 1981, filha de mãe croata e pai judeu iraniano, foi finalista do Man Booker Prize e vencedora do PEN/Hemingway em 2016, com seu primeiro romance Eileen.

Romancista promissora, Morshfegh constrói sua protagonista como uma hipocondríaca imediatista.  Tendo colhido boas críticas em publicações prestigiosas, a New Yorker, “Ottessa Moshfegh é sem dúvida a escritora americana mais interessante de nossos dias quando o assunto é estar vivo num momento em que viver é horrível.”

A autora Ottessa Moshfegh (reprodução)

Em Meu ano de descanso e relaxamento, a protagonista escolhe hibernar durante os anos 2000 à base de remédios tarja preta para se descolar completamente da realidade. Agora a humanidade vive uma pandemia em que a principal medida mundial foi a quarentena. Quais relações podemos estabelecer entre a narrativa do livro e o presente?

A conexão para mim é que talvez eu queira ir dormir por um ano e acordar em um mundo no qual a Covid-19 foi erradicada, eu suponho. Mas no romance, a protagonista não está tentando escapar de uma praga, ou uma situação política perigosa, ou qualquer coisa sobre seu mundo que é externo a ela. Ela só quer desligar sua mente para se curar da perda de seus pais e a violência de sua própria psiquê.

Dentre muitas críticas e sátiras sociais presentes no romance, você percorre uma busca insaciável pela felicidade?

A busca por felicidade é sempre insaciável porque é constante. Ninguém “atinge felicidade” e permanece lá. A indústria de autoajuda evita a ideia de tempo, em geral quando se trata de alcançar algum tipo de paz ou alegria ou o que quer que seja. O único estado permanente do ser é quando ele está morto. Mas gente morta não gasta dinheiro.

A personagem principal se informa o menos possível sobre o “mundo exterior”, apenas lendo manchetes de jornais quando compra seu café diário. A alienação, especialmente hoje, pode ser uma fonte de alegria?

Sim, claro. Algumas pessoas gostam de pular de aviões. Outras pessoas gostam de se estrangular com gravatas. Uma coisa simples como a alienação pode dar a uma pessoa um sentimento de alegria, se ela está sendo alienada de algo que a torna infeliz. Eu, pessoalmente, não encontro alegria em ler as manchetes dos jornais hoje em dia, nem em beber café. Gosto de abrir uma lata de água com gás e vestir uma roupa limpa. Se você vivesse em uma sociedade de monstros, a alienação seria uma coisa boa. Ou se você tem uma necessidade desesperada por privacidade…

Com tudo o que está acontecendo no mundo, e no seu país em especial, onde as eleições presidenciais estão próximas, é possível não ser ansioso? Como você acha que está a saúde mental dos americanos?

Muitas pessoas ficaram totalmente loucas. Eu tenho visto muita gritaria nas ruas. Eu moro em um subúrbio silencioso de Los Angeles, e vi comportamentos extremamente bizarros no meu bairro. Brigas e gritaria sobre coisas absurdas. Então, eu penso que muitas pessoas estão assustadas e na defensiva, gritando sobre isso e ficando com raiva.Outras pessoas, talvez pessoas mais sábias, estão se voltando para dentro e trabalhando em sua força mental, paciência e saúde em casa, sem gritar com os vizinhos. Então, eu diria que nossa saúde mental coletiva é uma mistura, mas que em geral somos loucos.

Podemos dizer que o universo de seus livros é niilista e os personagens são amorais?

Você pode dizer isso se quiser, mas chamar os meus livros de niilistas é um pouco preguiçoso. Qual o sentido de ler o livro então, se é niilista? Você pode ter apenas um pensamento sobre o niilismo ao invés de ler o livro. Aqui está um substituto para um livro niilista: “Nada existe”. Então eu não diria que meus livros são niilistas. Acho que eles podem desiludir o leitor de certas fantasias sobre o que é a realidade para os personagens. Quanto aos personagens, não acho que sejam amorais. Acho que meus personagens simplesmente questionam – e são honestos em questionar – as regras sociais pseudo-religiosas que deveriam definir o que significa ser uma “boa pessoa”. Quem fez essas definições? Eu aceito todas essas perguntas com senso de humor.

A protagonista acorda de seu ano de descanso e relaxamento pouco antes do 11 de setembro de 2001. Isso é uma alusão à sociedade? Estávamos “dormindo” antes da explosão?

Para aqueles de nós para quem o 11 de setembro foi um alerta, sim. Eu fui certamente sacudida do cerco de minha própria vida para uma consciência mais atual da mortalidade, pelos eventos daquele dia na cidade de Nova York. Assistir à morte de pessoas a alguns quilômetros de distância na televisão ao vivo definitivamente levam você a uma nova consciência, se é que você nunca viu antes.Dito isso, acho que há um número infinito de estados entre “dormindo” e “acordado”. Não tenho certeza se quero estar 100% acordada. Pode ser muito doloroso.

A protagonista do romance, na maioria das vezes, é fria e um tanto cruel. Você sente que a maioria das pessoas hoje em dia é assim?

Não mesmo. A maioria das pessoas que eu conheço são gentis.É raro encontrar alguém que seja realmente cruel. Normalmente esse aspecto está escondido sob uma espessa camada de outras coisas, e você tem que cavar para encontrar a crueldade.

*Jornalista, é coautora do Blog Inconsciente Coletivo.

Meu ano de descanso e relaxamento

Ottessa Morshfegh

Todavia

2019

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