A via crúcis de Vera

Imagem Instituto Ling/reprodução

Romance de estreia de Cleo Vaz, “Vera Ballroom” narra o calvário da protagonista consigo mesma

Matheus Lopes Quirino

Vera está atormentada. Depois da separação de Carlos Daniel, com quem passou mornos quinze anos, ela tenta, a todo custo, relacionar-se com homens. Em outras palavras, busca um grande amor. Um príncipe encantado, mas parece, inevitavelmente, estar atracada em uma lagoa repleta de sapos. A protagonista de “Vera Ballroom” mergulha em um idealismo inocente, logo no amor, esse bonde chamado desejo, como descreveu o dramaturgo Tennessee Williams, Vera, escreve a autora: “Está no ponto de ônibus, espera a vida passar”.

Aos 35, Vera mora na Barra da Tijuca, goza de estabilidade financeira e tem amigos com quem conversa e vai a danceterias e pubs, o que não a impede de ser uma alma solitária. Seu fluxo de pensamentos é incessante, pesado. Ela maquina os caminhos do amor, esse bonde desgovernado, fazendo sinal repetidas vezes. Mas o carro não para. Vera, que se lançou novamente aos encontros, acaba se frustrando, de tal modo que é percebida em dado momento parada em um semáforo, aos prantos, enquanto o casal estacionado ao lado pergunta se está tudo bem. Ela balança a cabeça, que sim.

Mas não está. Enquanto Vera máquina sua solidão, que a perturba como um relógio inconsciente tiquetaqueando frenético, ela enfrenta uma cruzada interior. Seu alter-ego, ou encosto, ou sombra fáustica, que seja, a persegue. É Fera, cruel sombra que a acusa, sinistra, jogando Vera ao lodo, às entranhas de um mundo subterrâneo, sua própria mente. Ela se sente perseguida, resolve procurar a ajuda de amigos, da psicanalista, e recorre ao delegado Araquém para resolver seus problemas.

Solitário, o policial a escuta imerso em fantasia. Não bastassem os delírios da protagonista, que descreve Fera como um homem alto, musculoso, com rasgo na sobrancelha, Araquém parte para uma busca incessante, fazendo batidas pela cidade, em busca de um provável suspeito. Esse criminoso imaginário, mais tarde constatará a protagonista, mobiliza o policial de tal forma que uma injustiça acabará pondo fim na loucura dos dois.

Uma espécie de Fausto Tropical, Vera e Fera se distinguem por uma consoante, F. Que, não à toa, é a inicial do amante que marcou a vida da protagonista, assinando F. nos bilhetes. Dono do Ballroom, conhece Vera no restaurante do salão, apaixonam-se. Uma paixão fugaz, com destino inexorável. F. está em outra, é homem casado, com filhos, papagaio, enfim, o sofrimento no amor é uma dádiva inevitável.

Carlos, Bruno, Flávio, Eduardo, Rogério, Paulo, Ruy, Cândido, Jimmy e outros tantos. À medida que os homens passam na vida de Vera, suas desconfianças são elevadas à enésima potência. Eis que surge a besta fera que, como uma trovadora do escárnio, canta a derrocada da estrela Vera que volta à estaca zero. A todo instante, ela está emaranhada em seus pensamentos intrusivos.

Palavra citada em várias passagens, é possível interpretar Vérico como um neologismo que busca a veridicidade, véridictoire’,verchok’,verdict’, veríssimo, vero. Embora não haja uma definição clara, fica este rastro de verdade que confronta com a ficção na qual a protagonista se enforca. Ao investigar as nuances da solidão no corpo dessa mulher de 30 anos, a Balzaquiana Vera, que, inclusive, é pechada pejorativamente assim, tropega em fluxos de pensamentos acadêmicos que são verdadeiras lombadas (desfoques) para o curso desse bonde de desamor chamado “Vera Ballroom”.

Com influência clariceana, o romance de estreia de Cleo Vaz tem doses da angústia latente que se perpetuou na obra da romancista, autora de A Paixão Segundo G.H. Bailando no apartamento ao som de MPB, Vera poderia se render ao ritmo de E minha condição mofina, jururu, panema/Embora, embora/Há uma certeza em mim, uma indecência/Que toda fêmea é bela/Toda mulher tem sua hora, como cantou Bethânia no álbum A Beira e O Mar, na faixa A Hora da Estrela de Cinema.Em “Vera Ballroom” o relógio corre como pano de fundo, mas essa hora parece nunca chegar.

Vera Ballroom

Cleo Vaz

7 Letras

136 p./A.E 2020

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