Vamos?

Às vezes, sorvemos um dedo de prosa da mesa alheia. Às vezes sorvemos um pouco de nós mesmos, simplesmente por existirmos integrados a outros humanos.

Sibélia Zanon

O café é uma desculpa. A melhor que há. A mais inocente. A mais corriqueira. Aquela que não denuncia. A pureza preta de uma xicrinha.

– Vamos tomar um café?

A pergunta pode ser lançada a qualquer pessoa. Um café é a segunda bebida mais querida, chega depois da água, beira a necessidade. Às vezes, faz papel de pausa, às vezes de afago. Às vezes é meio de subsistência de uma mente exausta. Muitas vezes é só um pretexto para estar perto.

Se Gregor Samsa tivesse tomado mais cafés, talvez não tivesse se transformado no inseto de Kafka. Com uma xícara de café em mãos e uma pessoa em frente mato o tempo já ganhando-o. Acordo os olhos para o outro. Escuto coisas não prescritas. Sou possuída por aroma.

Seguro-te nas mãos: um momento de paz, um momento de sossego. Foto: waferboard

Quem gosta da vida a distância, quando ao vivo se pode olhar como cada um toma o seu café? Lembro as reclamações sobre o café frio na térmica e o mau jeito em lidar com o envelope de açúcar, desenhando um caminho cristalino para as formigas.  Lembro os que não usam o sachê e se orgulham disso nas entrelinhas da fala.

Nas entrelinhas dos goles, enquanto deixamos esfriar o espresso, sorvemos mais um instante da companhia. Às vezes, sorvemos um dedo de prosa da mesa alheia. Às vezes sorvemos um pouco de nós mesmos, simplesmente por existirmos integrados a outros humanos.

Dizem que um espresso se faz com 12 grãos. E já faz mais de 12 meses que não tomo um café com você.

Lembro de quando rejeitávamos a força do espresso e pedíamos pelo coador de pano, fazendo de conta que não estávamos aturdidos por buzinas e poluições emocionais. Só de olhar o coador de pano, já sentíamos o gosto da broa de milho.

Precisei pensar nesses cafés, e nem sendo mais hora de eu tomar um, minha memória passeia por mesas cheias e pelo aroma dominador. Escuto um barulhinho de felicidade entre as xícaras que se cutucam sobre o balcão com suas borras reveladoras. As prosas das mesas ao redor se misturam aos sons da rua que não sossega. Quase cometo o deslize de tomar um café agora mesmo só pra fazer de conta. Mas não quero perder o sono. Não por isso. Não hoje. Amanhã cedo vai chegar. E qualquer dia você vai me perguntar de novo:

– Vamos tomar um café?

Sibélia Zanon é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.

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