Nova tradução de ‘Pantagruel e Gargêntua’ renova clássico francês

Foto: Gustave Doré, domínio público

Primeiro volume da obra completa de François Rabelais, autor pouco traduzido em português, chega ao Brasil  

André Vieira

Cachorros urinam rios que cortam a cosmopolita Paris, frades e advogados são doutorados em charlatanismo, guerreiros e espadachins são condenados a trabalhar na imprensa após guerras perdidas. Essas são algumas imagens recorrentes, dentre tantas mais entre litros e litros de vinho, escritas pela pena afiada de François Rabelais, médico, acadêmico e possivelmente espião francês que viveu no séc. XVI, transição do período medieval para o renascentismo na Europa.

Em Pantagruel e Gargântua, lançamento deste ano pela Editora 34, Rabelais (lê-se rabelê ou rabelé) tece uma curiosa narrativa que mescla desde gêneros populares da época, como os romances cavaleirescos e sátiras, até formas eruditas e eclesiásticas reservadas àqueles com dinheiro e prestígio nas altas classes francesas. O resultado desse potpourri é um livro extremamente divertido, combinando ironia, muitas vezes atemporal, a uma prosa de altíssimo nível — embora, deva-se reconhecer, nem sempre acessível a um público não habituado com livros mais densos.

Mas nessa versão em especial, o leitor leigo ou receoso ao “retornar aos clássicos” terá uma ajuda providencial do tradutor. Seja por meio de explicações ou recapitulações nas notas introdutórias dos capítulos, seja em aproximar temas (e a linguagem) dos séculos das sombras para os dias de hoje, Guilherme Gontijo Flores se destaca em indicar “as chaves de leitura” próprias dos tempos contemporâneos. O resultado é uma leitura engajada que cativa o leitor na prosa pantagruélica, sem apresentar um texto com toda complexidade e frescor almejados Rabelais cinco séculos antes.

Desde criança, Pantagruel teve um fraco por animais. Aqui brinca com algumas vaquinhas, que possivelmente se tornaram parte de seu lanchinho/ Gustave Doré, domínio público

A minúcia e o cuidados cultivados pelo tradutor podem ser vistos ao longo das histórias dos gigantes Pantagruel — historicamente conhecido como um diabinho que punha sal na boca dos bêbados — e de seu pai Gargântua, que desde o berço vivia exercitando a garganta gritando “beber, beber, beber”. Se muitas vezes, as aventuras épicas e anedotas tragicômicas, no arco de desenvolvimento da família de gigantes se valem por si só, Flores consolida sua presença na obra ao adicionar à história um pelo “caldo de brasil” abarcando desde referências populares deste século à infusão de uma linguagem zoeira, própria da brasilidade.

Durante a leitura ficamos maravilhados com os relatos ao estilo das Grandes Crônicas, com exageros, troças e um delicioso jogo que sobrepõe imagens, sons e ritmos em nossa própria língua, atestando mais uma vez a grandiosa de um autor do calibre de Rabelais. Logo, por se tratar de um clássico da literatura mundial é importante não se desanimar quando alguns trechos, nomes, descrições e conceitos, que a despeito de todo esforço e empenho de Flores — debruçado no projeto por mais de 4 anos — se revelem verdadeiros enigmas até aos mais entendimentos da literatura mundial. 

Mas aí chegamos a um impasse: quando é que se precisa entender tudo de um livro para apreciar a sua leitura? Por certo, leitores mais críticos argumentarão — e com razão — que livros como Pantagruel e Gangântua são um desestímulo ao público em formação e um martírio a preguiçosos entusiastas da literatura. Mas neste caso específico, defenderei a obra a unhas e dentes.

Explico: conectar-se a um mundo diferente do seu, sobretudo por meio de boa literatura, requer atenção, uma boa medida de esforços e por vezes um tantinho de ajuda do Google. Agora, quando nos debruçamos sobre um livro de outro tempo histórico, escrito por meio de outras lógicas e sob outras influências, é um verdadeiro milagre — tecnológico, linguístico, cultural — conseguirmos ter um entendimento global daquela. E sejamos justos: longe de hermetismos e ambiguidades do período, Pantagruel e Gangântua é uma obra objetiva, refinada e muito engraçada — embora, admita que às vezes seja um pé no saco olhar para aquilo.

François Rabelais: médico, acadêmico e possivelmente espião francês que viveu no séc. XVI, conviveu com a censura enquanto escrevia seus livros./ Domínio público francês

Não obstante, a própria dificuldade de um livro ou de uma obra pode ser um dos principais motivadores para engartarmos na leitura e conhecermos este mundo novo. Afinal, se a leitura se mostra desafiadora e o texto penoso é porque ao longo do capítulo, da página, ou na pior das hipóteses, da linha, sairemos recompensados pela engenhosidade dos contos e originalidade da linguagem: seja por seu carácter burlesco, de riso solto e indecente, seja pelo rigor ético e moral que certas discussões tomam o protagonismo na narrativa.

Quer melhor exemplo de criatividade que a astúcia rabelaisiana sua veia crítica? Sem muito esforço, entenderemos por que sorbonistas (aqueles que representam a universidade de Sorbone, em Paris) odiavam a todo custo Rabelais; por que noites de estudo cheiravam a azeite e manhãs de prazer, vinagre; e por que pôsteres e cartazes, na Paris do séc. XVI, eram motivo de temor pelo Rei e verdadeiros ensaios revolucionários — seria ali um prelúdio para a que determinaria o Século das Luzes? Vai saber.

A grande — e inesperada — recepção de Gangântua a cidade de Paris./ / Gustave Doré, domínio público

A tudo isso, novamente, fixa-se a importância da tradução e esmero com o trabalho de linguagem realizado por Flores ao longo da obra. Nota-se que desde aportuguesando termos — e em recriação vários, em função de trocadilhos e piadas — até o verter de concepções medievais aos costumes da sociedade contemporânea, existe ali um verdadeiro trabalho de coautoria com Rabelais e de cumplicidade com o leitor, encurtando distâncias temporais e criando íntimo companheirismo conforme vamos adentrando as crônicas.

Por fim, à narrativa instigante e à preocupação de contexto da obra nos dias de hoje, soma-se um trabalho impecável da Editora 34 pela editoração e apresentação do livro. Ademais, graças às belas imagens produzidas por Gustave Doré, temos um outro olhar da obra por meio de verdadeiros arabescos: seja para desvendar passagens abstratas e um tanto herméticas, seja para servir como “respiro” ao pobre leitor exaurido após — mais uma — descrição maçante da túnica de Pantagruel quando bebê.

Livro: Pantagruel e Gargântua: Obras completas de Rabelais, Vol.1.

Editora: 34.

Preço: R$ 87,00.

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