Natalia Timerman ambienta romance em tempos de Tinder

foto: Renato Parada/divulgação

Com protagonista obsessora, tensão toma conta do romance em tons sutis, até tornar-se incômoda

Giovana Proença

A fórmula é familiar aos que se aventuram nos relacionamentos modernos. O like no aplicativo é a abertura para a troca de mensagens As conversas digitadas levam ao encontro. Depois, muitas vezes, o silêncio. A alcunha ganhou o nome de ghosting e se popularizou nos caracteres do Twitter, vitrine do vocabulário das redes sociais. Contudo, na trama de Copo Vazio, primeiro romance de Natalia Timerman, há mais nuances entre o match e o rompimento do romance de Mirela, a protagonista, e Pedro, o fantasma da narrativa. Temos, então, um tratado sobre o amor nos tempos de Tinder. 

Em Copo Vazio ouvimos ecos da tradição literária, com seu time de mulheres em sofrimento pelo abandono. Mais próximo, percebemos o diálogo com o Dias de Abandono da italiana Elena Ferrante, autora que é objeto de estudo de Timerman no doutorado. Os romances compartilham o que a brasileira define como uma “certa coragem, uma certa disponibilidade a ir até onde o texto pede, a escutá-lo”. Esses elementos também são exigidos do leitor, que se vê diante do espinho que arranha a quase todos nós: o vazio deixado pelas múltiplas possibilidades do que poderia ser. Isso porque a história de Mirela e Pedro fica mais no subjetivo do que no pretérito. 

A narração envolvente de Timerman nos coloca no centro da busca de Mirela. Como a implicação do termo “ghos, a protagonista persegue  fantasmas. Não apenas Pedro, mas o rastro da relação, a intimidade compartilhada, o amargo do desencontro. A obsessão toma conta do romance em tons sutis, até tornar-se incômoda. Mirela vagueia pelas ruas de São Paulo entre a esperança e a desesperança de encontrar Pedro. A cidade se destaca como cenário desse Esperando Godot – ainda mais moderno. Dos bares de esquina na Augusta até a periferia, a mensagem de Timerman é marcada “São Paulo é uma cidade caótica, fundada na desigualdade, sem limites, e que ainda assim podemos conseguir amar.”

“A potência do amor se esvai no que pode virar um mero jogo de forças. Em alguma medida, quase todo relacionamento amoroso apresenta um jogo de forças, mas quando vira apenas isso o fundamento parece se perder, e há um esvaziamento da experiência, como em tantos outros aspectos da nossa maneira de viver hoje.”

O envolvimento é natural. Poucos leitores passam ilesos ao sofrimento sentimental de Mirela, que ressoa, como um coro de uma mulher só, em procuras universais: perguntas sem respostas, diálogos em aberto, o silêncio depois do último dia (sabia-se que era o último? Mirela com certeza não). A narrativa nos coloca diante de fantasmas cada vez mais presentes em terras da falta de responsabilidade afetiva. Resta ao leitor a coragem de olhar esse abismo. Dos goles de afeto, resta o copo vazio. Sobre o título do romance, Timerman afirma: “o copo vazio, como diz a canção de Chico Buarque (que conheci na voz de Gilberto Gil), está cheio de ar ― é sempre bom lembrar.”

Revista Fina: Natalia, como a história de Copo Vazio surgiu para você?

Natalia Timerman: Toda ficção, se não tem algo de propriamente autobiográfico, nasce ao menos de um atravessamento do autor por algum tema, questão ou história.  Com Copo Vazio não foi diferente: ele teve uma semente autobiográfica que se transformou numa árvore ficcional. Percebi que a dor de uma ruptura amorosa repentina e sem explicações me parecia desproporcional, e encontrei o eco dessa mesma dor em relatos de amigos e amigas e na minha escuta clínica. Achei que devia escrever essa história que um dia foi minha, mas que parece ser de tanta gente. 

Quais foram suas principais influências literárias?

Estudo no doutorado a Elena Ferrante e o Karl Ove Knausgård, dois autores cuja relação com a verdade da escrita me interessa muito, e talvez seja isso o que tenha me inspirado neles, uma certa coragem, uma certa disponibilidade a ir até onde o texto pede, a escutá-lo. Há algumas referências que acabaram entrando no próprio romance, como O fim da história, de Lydia Davis, e Isso também vai passar, de Milena Busquets, menções escondidas na narrativa como um tipo de reverência. O conto “Cat person”, de Kristen Roupenian, também me mostrou o tipo de detalhe que eu queria que compusesse o texto. 

O que te motivou a escolha da sua protagonista, uma mulher jovem, bonita, bem-sucedida – e padecida de amor?

Eu queria que o absurdo da situação dela se tornasse evidente, e isso só me parecia possível se ela tivesse aparentemente tudo o que a sociedade burguesa tem como premissa de sucesso, mas sentisse e agisse, diante do abandono ― diante da futilidade do fim de um relacionamento de três meses ―  como se não tivesse nada. 

O que você pretendia com a alternância de tempos dentro do romance?

A alternância de tempos foi a maneira que encontrei para sustentar a tensão narrativa e para, ao mesmo tempo, refletir a fragmentação da personagem, os cacos nos quais ela passa a se constituir depois que Pedro desaparece, e também a fragmentação típica da nossa época, em que não conseguimos ter certeza de quase nada, em que somos bombardeados por imagens, em que a velocidade de tudo atua como que para fazer do mundo um caleidoscópio de que tentamos, na maioria das vezes sem sucesso, ser o centro. 

Como você pensou as redes sociais como espaço para essa relação entre Mirela e Pedro?

É quase impossível escrever sobre amor hoje sem passar pelas redes sociais e pela internet, simplesmente porque é nesse meio virtual que as relações, na maior parte das vezes, começam, ou mesmo se “realizam” ou se sustentam. Se eu queria falar de amor nos dias atuais, essa especificidade precisava estar presente, e ela também acabou contribuindo para o próprio andamento da narrativa, pois acaba sendo uma forma de “presença” de Pedro, ainda que muito rarefeita e artificial, de que Mirela busca se alimentar. 

De que modo você vê o lugar da mulher nos relacionamentos modernos?

Estamos tentando entender tanto o lugar da mulher quanto o do homem nos relacionamentos modernos heterossexuais. Liv Strömquist, em seu A rosa mais vermelha desabrocha, nos ajuda nesse sentido, mostrando que, hoje em dia, como possível maneira de manter algum tipo de poder, já que as mulheres têm cada vez mais ocupado espaços antes exclusivamente ocupados por homens, os homens em geral fazem o que ela chama de performar indiferença, delegando à mulher a manifestação dos sentimentos que antes era papel deles. O que vemos, como consequência disso, é que também as mulheres têm tido dificuldade não só em expressar seus sentimentos, mas mesmo em reconhecê-los. A potência do amor se esvai no que pode virar um mero jogo de forças. Em alguma medida, quase todo relacionamento amoroso apresenta um jogo de forças, mas quando vira apenas isso o fundamento parece se perder, e há um esvaziamento da experiência, como em tantos outros aspectos da nossa maneira de viver hoje. 

Você conta a história de uma arquiteta. O que a geografia de São Paulo representada no romance diz para você? 

São Paulo é uma cidade caótica, fundada na desigualdade, sem limites, e que ainda assim podemos conseguir amar. Ela repele mas também acolhe, permite o anonimato mas pode às vezes se resumir a ele, se transformando então em solidão. Tudo isso conversa com a história de Mirela, com a não-história ou a quase-história de Mirela e Pedro, com essa busca sempre refeita e sempre fadada ao fracasso. 

Na sua opinião, o que comunica a profusão de personagens femininas em luto pelo abandono dentro da história da literatura?

Essa é uma ótima pergunta. Acho que a profusão de personagens femininas em luto pelo abandono talvez comunique, numa primeira camada, que, em nosso imaginário, as mulheres ainda se vêem como completas apenas em um relacionamento, ainda são cobradas e se cobram por isso; ou, talvez, fazendo um esforço de olhar a questão com mais profundidade, as mulheres sejam, hoje, portadoras da simbologia da capacidade humana de sentir, sejam fortes o suficiente para se assumirem frágeis e dependentes, como é e sempre será inevitavelmente cada pessoa que existe sobre a face da terra. 

A sua formação em psiquiatria impactou na sua escrita?

Tudo o que somos impacta na nossa escrita, então sim, a psiquiatria também influencia, mas acho que, mais que a formação, conta a experiência clínica, o encontro terapêutico, em que posso entrar em contato com os segredos das pessoas, com as coisas que elas tentam esconder dos outros e delas mesmas, com seus medos, seus vazios e que, ainda que absolutamente específicos, têm tantas vezes algo de universal, e por isso posso, talvez, escutar, acolher ― e escrever: porque percebo esses segredos, medos e vazios também em mim. 

Para você, o que é o Copo Vazio no romance?

A imagem do copo vazio é cheia de simbolismos. É a partir do vazio de um jarro que Heidegger, por exemplo, e depois Lacan, puderam pensar questões importantes e constituintes do ser humano: nossa falta, nosso manancial de desejo. O copo pode ser transparente, como talvez seja o narrador do livro ou a própria Mirela através dele; o copo é redondo, como também é o livro em sua circularidade, começando e terminando no futuro, circularidade essa que dialoga com a obsessão da qual Mirela não consegue sair. E o copo vazio, como diz a canção de Chico Buarque (que conheci na voz de Gilberto Gil), está cheio de ar ― é sempre bom lembrar. 

Copo Vazio

Natalia Timerman

142 páginas

Editora Todavia

2021

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