Fio da meada

ílustração de Ligia Zylbersztejn
Sibélia Zanon
É jornalista, escritora e autora de, entre outros, 'Espiando pela Fresta'

Olho a cadeira ao lado. Os cabelos da moça são esticados de tal forma, como se eles pudessem levá-la até uma nova dimensão. Mas, ela continua sentada no mesmo lugar. Duas conhecidas se encontram e se beijam com as máscaras e tudo. Penso que é beijo de novela, mas escuto os estalos saindo de dentro do pano. O afeto não anda se contendo.

– Vai cortar?

– Só as pontas.

Adele canta ao fundo. Felizmente o zumbido dos secadores intermitentes e a conversa impedem a maioria de perceber. Senão o clima amistoso poderia já dividir o salão entre os que concordam e os que discordam da acusação de plágio. Atualmente, qualquer tema requer o máximo cuidado. Os corpos, contidos nos últimos tempos, tornaram as mentes defensivas, talvez belicosas.

Depois de um ano cortando meu próprio cabelo, acho lindo ver alguém que sabe o que fazer com as tesouras. Fico assistindo às mãos assertivas dividindo os cabelos com o pente e cortando precisamente o que já é passado.

– Vai um café?

– Tem chá?

Lembro que aos 9 anos fui ao barbeiro do meu pai. Eu achava legal ter cabelo curto. Só que eu não tinha rosto e nem corpo para aquilo e na escola passei a ser chamada de menino. A lembrança me fez orgulhosa porque durante um ano cortando meu próprio cabelo, eu não fui tão barbeira quanto o barbeiro da minha infância.

O barulho repetitivo da lixa de unha faz as vezes de um calmante, quase um cafuné. Enquanto isso, quatro mãos ágeis trabalham para encobrir as raízes brancas da senhora, que, exibidas, já estavam se esticando para além da curva, querendo contar uma história de vida.

A água morna escorre e penso na disposição de cuidar. Massagear múltiplas cabeças, lotadas de ideias inexplicáveis e cabelos voluntariosos, é trabalho íntimo. Afinal, quantas pessoas efetivamente tocam os seus cabelos?

– Vai secar?

A moça ao lado parece feliz com o resultado dos cabelos esticados – ela é quase uma exceção nesses tempos em que a vida deixou de ser reta e se encheu de redemoinhos, caracóis e curvas perigosas.

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