‘Meninas’, de Liudmila Ulítskaia, evoca Lygia Fagundes Telles

imagem/reprodução

É impossível, a um leitor brasileiro, que o título da obra não evoque outras meninas- as de Lygia Fagundes Telles, que intitulam o romance de 1973

Bruno Pernambuco

Muitas diferentes meninas cabem dentro de uma mesma palavra – que, além de unir suas histórias sob a época da infância, as coloca num mesmo lugar, e num mesmo acontecimento histórico. Como uma manhã se faz do canto de muitos galos, no poema de João Cabral, um tempo, em Meninas – um dos principais livros da autora russa Liudmila Ulítskaia, agora publicado no Brasil pela Editora 34- se faz da sobreposição de múltiplas perspectivas, de observações daquelas que o vivem.

Meninas é certamente um lançamento que desperta curiosidade- sem dúvida pelo reconhecimento de sua autora, uma das principais figuras da literatura europeia contemporânea, e pelo apreço de que desfrutam os autores russos no Brasil. Mas há surpresa, também,  em encontrar um livro que verdadeiramente parte do olhar infantil, em que as impressões e experiências das meninas são tratadas como matéria literária- sem necessidade de uma supervisão adulta, censurando-as- e, com genuíno interesse e respeito, são elaboradas na forma múltipla e diversa do conto.

Um espaço que é usualmente frágil e reprimido, assim, se torna caminho para enxergar de outra forma o acontecimento histórico. Os retratos de Liudmila Ulítskaiadesmontam a meninice idealizada, e em geral escrita a partir de olhos masculinos- no caso do cânone moderno russo, especialmente na Lolita de Nabokov- para formar um relato que atravessa a memória e a historia, que retoma a dimensão viva e material do tempo histórico tantas vezes analisado de maneira fria e distante.

A decisão da autora de retornar a um tema assumidamente próximo de sua experiência, e de sua própria lembrança, para narra-lo a partir de múltiplas vozes, revela uma elaboração literária da memória que trabalha em caminhos oblíquos, que seleciona momentos, situações, personagens, e em cada um deles se demora um pouco com sua luz, e que confunde, propositalmente, a memória pessoal e a memória coletiva. Cada história de Meninas revela uma face do “terror e da atração” que a autora usou para descrever seus relatos, e em viradas, revelações e jogos de cena, esses contos trazem para o presente algo que estava ignorado.

Retratos

As narrativas de Liudmilla Ulitskaia são construídas a partir de silêncios, de espaços inexplorados, de dúvidas. O canto apertado, fora dos olhos da autoridade, é muitas vezes mais importante que o campo aberto, o detalhe é mais trabalhado que o grande acontecimento.

Irineu Franco Perpétuo revela seu excelente trabalho de tradução ao manter a ambiguidade que é própria dos pensamentos e das reflexões das meninas, ao mesmo tempo em que os espaços são descritos de maneira muito concreta. Retratos muito claros e próximos da realidade são construídos pelas palavras da autora, desde as casas pobres, da periferia de Moscou, até a glória, em declínio, do Museu Central. A ironia se mistura à ansiedade e à confusão social trazidas pelo fim do período stalinista, e passagens em que o arrepiante se mistura ao bem humorado, e o grotesco se mistura ao realista, são frequentes ao longo dos contos.

A morte de Stálin- acontecimento definidor do período em que se passam as seis narrativas contidas no volume-  se torna uma sombra que, para o leitor, acompanha a recepção dos acontecimentos da narrativa. Um acontecimento que não é compreendido totalmente em nenhuma das histórias, e que com isso ecoa um sentido histórico de transitoriedade e de mudança. Essa assombração distante (embora em alguns momentos recebida com calma) reflete o começo do fim de uma identidade e de uma ideologia soviéticas, um entremeio, uma indefinição que serve de espaço às narrativas. O olhar da autora pousa em diferentes retratos, evocando, dentro da indefinição, uma materialidade que é muito crua.

Aproximações

É impossível, a um leitor brasileiro, que o título da obra não evoque outras meninas- as de Lygia Fagundes Telles, que intitulam o romance de 1973

É interessante notar como, aproximando as duas obras, a mesma palavra serve para definir períodos distintos- na obra de Ulítskaia, as crianças são verdadeiramente protagonistas, suas reflexões, medos e culpas são o centro dos contos, diferentemente do romance de abandono da meninice de Lygia. 

Em Meninas mulheres mais velhas surgem como coadjuvantes, em geral personagens de família, mães, irmãs de personagens nomeadas, ou como figuras das instituições de ordem. Em diferentes momentos tanto jovens adultas quanto senhoras servem como espelhos que cercam a vida das protagonistas- ressoando em suas impressões por conta de sua proximidade, e da visão dos papéis destinados às mulheres. Mesmo as jovens são coadjuvantes, personagens externos, cuja interioridade não é tão desenvolvida quanto a das crianças a quem pertence a memória.

Fugir do sentido pejorativo da “longa meninice” das mulheres, que Lygia assumiu e transformou em seu, é uma marca da particularidade do olhar de Ulitskaia. Os pensamentos, as reflexões e experiências das meninas- e, por extensão, também sua sombra, sua crueldade, detém na sua obra uma importância como em nenhum dos grandes autores russos. Com sua decisão de escrever a partir da infância, a autora dialoga com uma tradição literária tipicamente russa, mas também a inverte, e lhe coloca um novo ponto de vista. A vida de suas meninas não está sobreposta apenas ao olhar machista e psicótico a que Humbert Humpert, o  protagonista de Nabokov, submete a jovem Dolores, mas também à sacralidade da infância reforçada em diversas passagens, por exemplo, na obra de Dostoiévski.

O trabalho de Liudmila Ulítskaiarevela a ambiguidade do pensamento e das emoções- nada é seguro, firme, nem sobrevive a esse sem fim que é a interioridade. Seu olhar particular, sua periculosidade na construção dos espaços e das situações, e sua elaboração da memória, que extrapolam a autorização, fazem da autora uma das vozes mais interessantes da literatura contemporânea

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