Inverno

Tudo começou com o Mercúrio retrógrado. Pela janela, um dia cinza, tipo Londrino. No noticiário, deu que vão derrubar todas as casinhas de São Paulo. Malditas incorporadoras. Vão ao chão às memórias, os bons momentos soterrados pela ganância dos que não têm medo de jogar pás de cal em cima das felicidades. Nada interessa na cidade, as memórias, tudo vira lixo, escombro. 

No deserto sem saudades, sem remorsos, só. Um dia o céu se reuniu à terra, um instante, por nós dois, pouco antes do ocidente se assombrar. Me contou a Adriana, era pra ter sido o dia em que fui mais feliz. Eclipse. Chegou o inverno com suas sombras e sopro de destruição. Coisas bonitas se misturam ao barro e ao lodo. Cacos. Como se uma retroescavadeira avançasse em cima de uma cristaleira norueguesa que vinha conservando. Vai tudo ao chão. Sinto o cheiro da poeira, a textura dos flocos de vidro pesando no ar. Pelas nossas narinas, que sangram, escorre um líquido que parece sangue. É o suco de memória da alma que seca. As casinhas são derrubadas, as flores arrancadas. É um dia frio e eu só quero escutar algum álbum florido da Maria Rita. 

Entro no trem que chega, a plataforma da estação está um formigueiro. A vida corre da janela do trem, o frio aperta com a garoa. As luzes cintilam ao longe, a cidade pulsa em cima da destruição. Não sei quando volto a escrever sobre o moonwalk do Mercúrio, planetinha danado. Dentro de cada pessoa, cada lágrima, uma estrela se apaga. Coloco isso em repeat no aplicativo de música. Estrela, seu Gil. São músicas de inverno. As estrelas se apagavam no trajeto até não sobrar nada a não ser um céu desfigurado.

É chocante lidar com a força, o peso da pá, em direção a um daqueles sobradinhos fofos de vila. Ao longo dos anos, o interior da casa foi se cercando de boas memórias. Cristaleiras, porcelanas, móveis lustrosos de madeiras raras, pinturas, fotos de família. Os tapetes contam histórias e os toca-discos embalam amores. Tudo se vai, sem dó, nem piedade. O inverno chega no rastro de uma onda de poeira, da cidade em eclosão, abalo sísmico, britadeiras perfurando as cabeças, corações e mente. 

Era um dia frio quando acordei no escuro, ainda. Não tinha horário, não tinha nada. Abri a janela, uma névoa tapava o céu dos nossos olhos. As estrelas de dentro de casa já estavam apagadas. Tudo escuro. Nada Azul, como a Gal cantava no Verão. A quanto tempo meu prédio ficaria de pé? Uma picareta destruía um bloco de pedra que, quando aberta, brilhava como uma estrela. Talvez das últimas daquela cidade escura. Ainda vamos acreditar que exista outra, eu quero acreditar que ela volte a brilhar.

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