‘Culpa’, de Caco Ishak, é resultado da literatura em tempos tensos

imagem/divulgação

Ao expor conflitos no Oriente Médio e jogar luz à violência do cotidiano, Ishak denuncia com sua literatura o que, em palavras, parte da mídia banaliza em textos frios e assépticos

Matheus Lopes Quirino

Ousadia é a palavra. Tempos radicais, com cataclismas, tensões políticas, não passam em vão. Nem pelas palavras, esta poderosa, mas não corrosiva, arma, que ao mesmo tempo que ataca, defende. Esse espírito de contestação segue em Culpa, seleta de contos do escritor Caco Ishak, lançada sob a luz incendiária de 2021. Rápido e áspero, as nove narrativas mantêm um fio de revolta justificada que penetra na literatura.

Se esta fusão de consciência de classe, insight de que estamos ferrados, incomoda alguns por contaminar o texto, eis que em tempos de pandemia, quando o contágio é inevitável para os que negam (e não) a face do descalabro, surge um Diabão com vestes orientais, meio budistas, que repousa ao lado de um narguilé e parece em paz. Curiosa, a figura que habita a capa de Kael Kassabian é ao mesmo tempo o espírito do espectador que Culpa traz em suas breves 90 páginas. O Diabão, de férias, observa os estragos feitos pelos asseclas do mundo real, estando o espírito perdido em miragens brutais e desoladoras, como Ishak retrata ao longo do livro.

Ao expor conflitos no Oriente Médio e jogar luz à violência do cotidiano, Ishak denuncia com sua literatura o que, em palavras, parte da mídia banaliza em textos frios e assépticos. A realidade é suja e dolorosa, para os que padecem por ser quem são, simplesmente, em um Brasil que avança para a distopia, como alguns dos contos que se apropriam da silhueta apocalíptica. O grito de horror, essa figura simbólica na literatura, encontra um túnel amplo e fétido para ecoar neste livro. 

Fina – O conto que abre o volume remete à violência dos fazendeiros contra os povos da floresta, certo? Qual foi a sua referência?

Caco Ishak – Algumas tantas referências, na verdade. Faz anos que venho investigando sobre os dois temas, narcotráfico e demarcação das terras indígenas vs latifúndios. Assim que lancei o Eu, cowboy em 2015, abri dois outros arquivos de Word: “narcos” e “mozarland”. Respectivamente, os embriões do segundo e do quarto romances — prefiro manter o tema do terceiro em segredo por ora, fecha o que virá a ser uma trilogia ao lado do primeiro e do segundo. Uma quadrilogia, talvez, a depender de como os próximos dois se desenvolverão. Mas, enfim: uma trilogia a princípio. Quem conseguiu chegar até o fim do Eu, cowboy talvez faça ideia do que vem por aí. Em suma: o segundo tem como pano de fundo um notório caso de narcotráfico na Amazônia nos anos 90 e o quarto é um romance de formação que se passa na divisa entre Goiás e Mato Grosso, Parque Indígena do Xingu. A ideia pro conto surgiu das pesquisas. Juntei as duas temáticas, experimentei um pouco na linguagem (não curti muito o resultado, no fim das contas, diga-se) e saiu, aos quarenta e nove do segundo. Talvez os dois principais dilemas brasileiros e faz tempo, as raízes de todo o drama nacional.


A temática da morte está em alguns contos, como você lidou com ela na pandemia?

Pode ter parecido premonição — não foi, piada interna — mas, seis meses antes da pandemia começar, decidi me mudar pro litoral do Pará, Salinas, uma cidadezinha com quarenta mil habitantes. A ideia era só ter um bote à mão pra pegar o Atlântico caso acabasse acontecendo o pior com Bolsonaro no poder. Sem saber, entrei em quarentena antecipada. E o pior aconteceu. Ninguém da minha família consanguínea morreu, mas perdi gente querida, pessoas próximas, família. O livro, inclusive, é dedicado a uma delas, Orlando Paes Barreto, o Tio Orlando. Rodou a cidade toda atrás de hospital, isso em Belém, pra só conseguir um lugar na fila do hospital de campana montado pelo governo. Foi intubado mas não resistiu. Logo no começo da pandemia, abril de 2020. Mas não enterrei ninguém. Ninguém enterrou. Vimos covas abertas nas capas das revistas, dos jornais, mas quem esperava algo próximo d’A Peste, do Camus, acabou se “decepcionando”. Não houve corpos empilhados nas ruas, não houve vômito nem sangue. Houve dor, houve revolta, mas ainda não houve o devido luto nacional. O chefe da nação foi o primeiro a ignorar o luto. O resto só fez acompanhar. Seja por concordar ou necessidade. Ou oportunismo. Bolsonaro não chegou ao poder num passe de mágica, não é a doença mas o sintoma. Resta saber o que causou a doença em mais da metade dos eleitores. A morte é cotidiana. Não tem quarentena que baste.


Quando você trata conflitos contemporâneos, questões da Palestina e Coronavírus, o leitor se depara com algo quase televisionado. Como você lidou com o noticiário nos últimos tempos?

Parei de acompanhar o noticiário quando o Brasil chegou aos cem mil mortos em decorrência da pandemia. Foi a melhor decisão. Pena que só durou até os trezentos mil. Senti falta da ilusão de pertencimento que o Jornal Nacional proporciona. Não está entre minhas fontes de informação, é só pra me sentir um tanto Homer também ainda que por meia hora. Ligo a TV e desligo o cérebro, bem clichê. Faz tempo que tento me informar por meio dos veículos estrangeiros, grande mídia e independentes. Em tempos de polarização (porque, sim, ela existe), é bom buscar informação em zonas neutras. Durante a pandemia, em especial, Glenn Greenwald e Russell Brand foram meu norte. Quando um humorista leva certos assuntos mais a sério do que a imprensa, o negócio está feio mesmo. Mas nada de novo no front, Oscar Wilde que o diga. No conto sobre a pandemia, por exemplo, o trecho dos apartamentos subitamente esvaziados após o que pareceu ser um surto coletivo, uma gritaria só na calada da noite seguida das luzes todas apagadas, foi baseado em fatos reais que aconteceram em Wuhan logo no começo de 2020, tudo registrado em vídeo. Só que ninguém aqui noticiou. Então, pra todos os efeitos, nunca aconteceu. Nasceu e morreu ficção. É como lido com o noticiário, no fim das contas: uma obra de ficção mal escrita, cheia de clichês, que tenta manipular a realidade de acordo com os interesses de quem paga mais. Com a questão da Palestina não é diferente, bombardeios contra balões. E aí nem a mídia estrangeira salva, salvos os independentes.


Em quem você se inspirou para criar o Joelson, o jornalista chapa-branca?

Eu poderia citar um nome específico e seria brutalmente honesto, embora um tanto deselegante. Poderia citar alguns tantos nomes e seria brutalmente honesto de igual modo, mas ainda um tanto deselegante. Não faltam jornalistas chapas-brancas no mundo, é só abrir os jornais, ligar a TV. Não quero entrar aqui na discussão sobre lugar de fala, prefiro ficar calado ou escrever enquanto homem cis hétero branco — conforme fiz em oito dos nove contos de Culpa. Só que, da feita que o escritor — ou o jornalista — se propõe a capturar uma realidade que não é a sua, que ele o faça com um mínimo de responsabilidade, com verossimilhança, com empatia, e não apenas pra lacrar ou sair em capa de jornal, por pura diversão ou esporte. Há quem se divirta escrevendo certas coisas, sabe. Já eu chorava pelos dedos. Mas me questionei muito durante a criação desse conto, Faixa de Gaza, sobre o quanto de mim não era Joelson também. Foi no lugar dele em que me coloquei, afinal. E talvez, de fato, fosse eu ali escrevendo os contos todos, “a vida como ela ainda é”, uma grande metalinguagem. Uma única certeza: Joelson precisa morrer duma vez. Daiane está mais viva que nunca e tem voz própria. Que ela mesma narre sua história. E aposto que não vai sentir o menor prazer nisso.


A violência é uma espécie de motor nos seus textos. Como você lida com ela no dia-dia?

É engraçado ler isso, mas foi o buraco onde me meti. Ou onde nos meteram. Meus livros de poesia e o Cowboy bebem em outra fonte, são bem existencialistas, nada violentos nem políticos. Uma violência autoinfligida, talvez. O autoboicote que me persegue. Tenho de conversar com minha analista a respeito, porque não foi algo que decidi do dia pra noite, “vou escrever um livro de contos empapuçado de sangue”. Os contos foram nascendo aos poucos, ao longo dos anos, e eu não me toquei dessa violência até a hora de reunir tudo. Quem conhece meu trabalho só pelos livros autorais não deve ter entendido nada. Nem eu entendi direito. E a escrita é isso mesmo, né, a melhor autoanálise possível. Não dá pra dizer que lido com a violência (stricto sensu) no meu cotidiano. Longe disso. Sou bastante privilegiado, desde o berço. Apesar de duas ou três armas já apontadas pra minha cabeça, foi uma violência atrás da qual eu mesmo corri — num beco em Cali, investigando sobre o narcotráfico, e na Consolação, a escopeta de um PM durante as manifestações contra o golpe de 2016. Poderia ter ficado quieto no conforto do lar. Poderia ter escolhido me alienar. Poderia. Mas algum dia teria de pôr os pés pra fora de casa. E, da porta pra fora, é buraco abaixo. Há quem prefira a ilusão de voar. Há quem prefira patrocinar as escavações. Elegeram até presidente, como já foi dito. Eu prefiro me deixar cair. Se por curiosidade, autoflagelo ou empatia, é que são elas. Tema da próxima análise, agradeço.


Qual é o papel da escrita de denúncia no Brasil de hoje?

Pra começo de conversa, não cobrar denúncia de toda escrita. Acho muito chato isso de fazer qualquer coisa obrigado. Militância é vocação desde que o mundo é mundo. Isso não vai mudar. Num país em que mal se lê, então, talvez o principal papel seja conquistar esses leitores. Ninguém vai ler nada por obrigação depois de sair da escola. Literatura não é lugar obrigatório de denúncia. Jornalismo, sim. Só que ando lendo mais sobre a realidade na literatura ficcional e cada vez mais ficção nos noticiários, como já disse. No que toca à literatura, isso é bom. Já ao jornalismo, nem tanto. Portanto, talvez caiba ao jornalismo reconquistar esses leitores e não à literatura. Aí, é só denunciar. De desvio de dinheiro em quermesse no interior a casos de corrupção envolvendo os filhos do presidente.


Quais são suas referências literárias?

Mentiria se deixasse Bukowski e os beats de fora. Perdão, já fui adolescente e não me envergonho disso. Embora Rubem Fonseca, Raduan Nassar e Hemingway tenham vindo antes, e Thomas Bernhard, Houellebecq, Elvira Vigna e DFW tenham vindo depois, afora os poetas modernistas dos anos 20 e os malditos dos anos 70, em especial Ana Cristina César. Manoel de Barros, evidente. Minha maior influência direta, porém, foi e continua sendo Paulo Scott, tanto na poesia quanto na prosa, desde o Ainda orangotangos, pela Livros do Mal — outra grande influência direta, de modo geral (Vidas cegas, do Marcelo Benvenutti). O Scott é um titã contemporâneo, mestre demais, e um dos autores mais generosos que há. Devo boa parte da minha literatura a ele. Outro que não posso deixar de mencionar é Fausto Wolf. O lobo atrás do espelho foi um livro que me marcou bastante, no fim da adolescência. O Wolf não foi apenas uma referência literária, mas jornalística e moral. Merece ser redescoberto com toda pompa e toda glória. Necessário.


O que você está lendo?

O livro que estou traduzindo, felizmente: Meia-noite no jardim do bem e do mal, do John Berendt. Nas horas vagas, Djinn patrol on the purple line, da indiana Deepa Anappara. Como bom escritor brasileiro, tento acompanhar os lançamentos dos conterrâneos. Os mais recentes foram: Tristeza infinita, do Antônio Xerxenesky; Os tais caquinhos, da Natércia Pontes; O riso dos ratos, do Joca Reiners Terron; e Nada vai acontecer com você, da Simone Campos. De não-ficção, Canceling comedians while the world burns, do norte-americano Ben Burgis — alguma editora brasileira precisa publicar esse ensaio e, por favor, prontifico-me desde já a traduzi-lo. E sim: não consigo ler um só livro de cada vez.


O que o leitor não pode deixar de ler?

Proust, sempre. Os existencialistas franceses, de quando em quando. Que tal um autor paraense? Dalcídio Jurandir, Max Martins, Olga Savary, Flávio Nassar. O novo em geral, quem ninguém lê. Mas também os sempiternos, os imortais já cancelados tanto pela esquerda quanto pela direita. Aliás, muito me preocupa o cancelamento de quem não pode mais se defender, embora a obra em si seja a melhor tese de defesa. Entender o contexto, entender o que foi dito, quando foi dito, por que foi dito. Não podemos recair no erro do inimigo se quisermos de fato reconstruir a sociedade. Não podemos atear fogo em clássicos só porque o mundo mudou — ou carrega no umbigo a pretensão de ter mudado. A censura, por exemplo. Passou das mãos do Estado pr’as mãos dos bilionários. E todo mundo parecer estar tranquilo quanto a isso. Endossam até, em nome do coletivo. Só que bruxas foram queimadas em nome do coletivo. Livros foram queimados em nome do coletivo. Obras de arte foram censuradas. Informações foram censuradas, o debate. Tudo censura. E, sabemos bem, a única censura válida é a autocensura. Quem ainda tem alguma dúvida, que releia os livros de história. Não se pode abrir mão impunemente de um princípio em nome de outro. A esquerda vem fechando os olhos pra isso. Então, fico com a máxima clássica de um notório reaça: “toda unanimidade é burra”. Só espero que Bolsonaro caia duma vez pra que voltemos a pensar.

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