Drummond, tempo, vida, poesia

imagem/reprodução

No aniversário de 118 anos do nascimento do poeta, sua própria poesia, sempre incompleta, tem grande sacada já ao ironizar suas infinitas faces em, apenas, sete. 

Bruno Pernambuco

Um poeta inteira e singularmente. Assim ficou a lembrança de Drummond. Lembrar-lhe é lembrar a poesia que atravessa todas as esquinas da memória, e as redefine numa precisão única. Uma junção precisa, sentimental e cáustica do país, do tempo em que se vive, do relógio do fim do mundo caminhando, das notícias de longe, dos amigos, da infância, de uma Itabira gigantesca e mitológica, de uma linhagem real esquecida e de sua sombra, dos detalhes particulares de cada homem comum, das notícias e sorrisos que correm dentro da noite, das contradições que há dentro de uma mesma língua, de uma mesma palavra. 

Vendo através do retrato da capa da edição de bolso, Carlos é o homem que sempre espreita com sua esperteza e sorriso soberbos, cheios de algum segredo, com alguma confidência em relação à vitalidade, com a força de um enigma resoluto, se não resolvido, a respeito da vida. Sua própria poesia, sempre incompleta, com apenas um toque desse riso chegando à letra, tem sua grande sacada já ao ironizar suas infinitas faces em, apenas, sete. 

Um percurso sentimental, pessoal, da obra do itabirano é um caminho sempre delicado, cheio de curvas, cheio de reviravoltas, que exige a capacidade de se perder. Conhecer o poeta é saber ser feito de trouxa por ele — talvez pela proximidade dessa sensação seja que seus versos perduraram por leituras e leitores tão distintos. 

De qualquer forma, tentar penetrar na memória pública que restou  de Drummond, com seu vulto simultaneamente esguio e gigantesco, não é necessariamente tarefa mais fácil. O poeta que se ocupava das coisas findas é, possivelmente, aquele sobre quem mais coisas lindas foram ditas na história — ainda incipiente; acabada, sem que o saibamos — da literatura brasileira. Cada declaração, na sua singeleza ou exagero, é uma nova memória, uma anteposição que não dá a conhecer o homem de verdade.  

Disse Humberto Werneck que enxergava o homem a seu lado, compartilhando o meio-fio, falando tudo aquilo que o garoto subitamente descobria em si mas não era capaz de dizer. Nessa pequena cena comum já se imagina certamente a sarjeta da noite escura, e a vista do viaduto de Santa Isabel que foi palco de tantos arroubos acrobáticos. Disse Manuel Bandeira, de sua altivez gentil e bem-humorada, de sua grandeza de espírito tão eloquente, tão aparentada com o próprio Drummond, “enxergar grandes similaridades” com o mineiro. O elogio mútuo entre Carlos e Mário de Andrade, foi tanto, tão completo,de um acerto tão inesperado e integral, que quase permanece até melhor traduzido na sisudez das duas figuras, resumido em algum grande anseio literário em meio às cartas trocadas.

Dos grandes, o que interessa, a rigor, é a parte humana. De Drummond fica não só a conversa com Mário, separada, selecionada, devida, como também aquela correspondência sem destinatário certo. Por exemplo, aquela mutuamente criada, a duas bocas, pelo poeta e por Lya Cavalcanti, no que ficou, na falta do programa original para ser reproduzido, registrado no volume Tempo, Vida, Poesia. A correspondência da memória, de sua entidade independente, com o leitor anônimo.

A correspondência do passado com o presente, da invenção poética com sua matéria prima e bruta, de experiência da vida. Talvez, com toda a sua lisura, sua perspicácia, seus desvios, seja aí onde Drummond se revelou melhor. Igualmente, também, esse não é o caso — o sabe quem quer que leia qualquer verso da poesia drummondiana, onde toda essa história contada está tão inteiramente e, com seu sorriso irônico, tão honestamente. De resto, permanecem os acasos, com suas lições, luzente como a lembrança mais preciosa.

Além desses, de Drummond, do poeta Drummond, ficam sementes. Gérmens de uma memória. Planos de uma biografia que caminham bem. Um calor despertado pelos versos. Notícias velhas de efemérides. Os mesmos versos, lidos relidos e trelidos, mas com algo de novo que ainda é dito, por quem escreveu ou por quem lê. Fotos antigas, uma lembrança das crônicas, das notícias, uma descoberta inesperada de um segredo, um redesenho da mesmo caminho que em algum ponto incerto se bifurca para uma estrada nova. Uma celebração. E uma memória constante- entre outras coisas, de que a invenção não depende de fato de nenhuma invenção nossa, mas de algo que está muito além de nós- de nós só depende viver completamente as angústias e quiçá bata um vento favorável para algum lado.

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