Outros carnavais

Ilustração Matheus Miguel @poesianasestrelas

No Carnaval não há espaço para a distinção de nenhum tipo, impera um sentimento fraternal

André Filipe, colaboração para Fina

Os mais velhos costumam dizer que o Carnaval era melhor antes do que agora. Era mesmo? Vai ver nessa declaração tem mais saudosismo do que verdade. Bom, se era melhor eu não sei. O que sei é que por aqui o Carnaval continua sendo os dias mais mágicos do ano.

É mais ou menos assim: acordamos cedíssimo com uma disposição que nunca tivemos em nenhum outro dia. Depois do banho caprichado dá-se início a montagem. Os trajes seguem apenas uma regra: pouco pano e muito brilho. Em seguida o café reforçado: pães, bolo de milho, cuscuz, macaxeira, enfim, tudo o que puder sustentar os corpinhos ávidos pela folia.

Lá pelas oito da manhã partimos de ônibus, carro, moto, van, seja lá o que for; os amigos vão se encontrando pelo caminho e já formando enormes grupos. Há também quem vá sozinho, com a certeza de logo encontrar gente que nunca viu na vida e ali mesmo iniciar a amizade mais sincera que existe, a amizade de Carnaval. 

E aí desembocamos em Olinda! Na Praça do Carmo, os blocos se concentram esquentando os repiques, os chocalhos e os tamborins. Ao primeiro sinal do trompete a multidão estoura numa alegria desenfreada. As mulheres lindíssimas balançam para a frente tudo o que têm de bom; homens barbados choram que nem meninos ao ouvir o hino do seu bloco do coração; famílias inteiras se abraçam, fazem rodas, cirandas. A cidade se incendeia num frenesi adoidado.

Subimos pela Rua do Bonfim seguindo o rastro das marchinhas e frevos. Há gente de todas as cores, tamanhos e maneiras. No Carnaval não há espaço para a distinção de nenhum tipo, impera um sentimento fraternal. Seguimos pela Rua do Amparo até dar na Pitombeira dos Quatro Cantos, mas é um trajeto sem pressa, parando em cada esquina para bebericar, dançar, reencontrar velhos amigos e fazer novos.

Em certo momento a orquestra, não satisfeita, puxa o hino do Elefante, bloco fundado em 1952. A multidão logo se agita e entoa à plenos pulmões: Olinda, quero cantar a ti esta canção. Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar, faz vibrar meu coração de amor a sonhar… É a maior declaração de amor do mundo! Quem não sabe dançar frevo, súbito é tomado por uma entidade carnavalesca e imediatamente cai no passo, como se fosse profissional. Grande momento.

As refeições são todas feitas em pé, nas milhares de barraquinhas que tomam as calçadas. Come-se apenas o suficiente para repor as energias; e se, enquanto o folião estiver comendo, passar uma troça, ele joga o prato para o alto e sai atrás pulando, num descontrole corporal. 

Ah, o Carnaval… Como já estou chegando no limite de caracteres desta crônica, não será possível contar tudo o que vivemos nesses quatro dias mágicos. Uma festa que parece não ter fim. Ali ninguém quer saber de tristezas que Carnaval não é para isto. A cambulhada quer mesmo é a dança. E aqui é necessário dizer, sem bairrismo, apenas para constatar um fato: temos mesmo o melhor Carnaval do Brasil. Quiçá do mundo! Discorde quem quiser. Essa mania de grandeza do pernambucano, não sei onde vai nos levar.

André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife

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