Onde está Deus?

Ilustração de Ligia Zilbersztejn

Por que mesmo não podemos comer carne na sexta-feira santa? O pobre peixe também não é bicho? Se o batismo é para ser uma escolha sobre que religião seguir, por que ele é realizado em crianças, quase bebês?

Maria Paula Curto*

Eu devia ter uns sete anos, quando cheguei em casa e perguntei à minha mãe, após a segunda ou terceira aula de catecismo, que pecados eu deveria confessar ao padre. Sim, sou do tempo em que as crianças batizadas na igreja católica, ou seja, a grande maioria, frequentavam aulas de catecismo, como uma espécie de “curso preparatório” para a primeira comunhão – só não me questionem sobre o que é exatamente a primeira comunhão, pois não consigo explicar isso muito bem até hoje, mas vocês já vão entender o porquê da minha ignorância. Minha sábia mãe, ao ver aquele ser (ainda) tão inocente procurar pelos ditos pecados infantis como: “falei nome feio”, desobedeci a minha mãe, comi mais doce do que devia ou qualquer outro mega pecado semelhante, resolveu me retirar imediatamente do tal curso de catecismo, alegando que era um absurdo forçar uma criança a confessar atos tão corriqueiros – e bem pouco pecaminosos – a um padre que, na visão dela, certamente deveria ter um rol de atitudes bem mais tenebrosas na sua história de vida. Com essa decisão, eu acabei passando minha infância sem receber qualquer educação religiosa formal, o que me fez uma verdadeira herege aos olhos de alguns beatos de plantão e uma terrível contestadora de certos rituais tão adorados.

Que rituais? Coisas do tipo: Por que mesmo não podemos comer carne na sexta-feira santa? O pobre peixe também não é bicho? Se o batismo é para ser uma escolha sobre que religião seguir, por que ele é realizado em crianças, quase bebês? Não consigo imaginar um bebê se recusando a ser batizado ou ainda negando aquela madrinha ou aquele padrinho – que, muitas vezes, nem vão saber da existência dos pobres coitados poucos anos depois… – somente um certo berreiro ao receber um pouco de água na testa… Aliás, meu argumento sempre foi: mas até mesmo Jesus foi batizado adulto, certo? Ou questionar certos costumes diretamente adaptados de realidades completamente diferentes da nossa, como comer nozes, avelãs, pernil e tender na ceia de Natal com os termômetros na casa dos 40ºC no Rio de Janeiro ou o pobre papai Noel vestido de veludo vermelho em pleno Saara carioca. E não pensem que Saara é força de expressão. Não mesmo. Saara é uma região de comércio popular, como uma 25 de Março, bem no centro do RJ. E vocês reclamando de algumas horas extras e calça de alfaiataria no escritório com ar-condicionado da Faria Lima, né?

você nunca teve aquele dia de cão, com mil reuniões enfadonhas e de repente, ao olhar na janela da sala, você se pega de boca aberta ao ver um sol se pôr, enorme, lindo, transformando o céu em vários tons de vermelho, laranja e lilás, nessa São Paulo tão cinza?“/ Acervo da Autora

E aquela história da Santíssima Trindade? O famoso 3 em 1? Parecia até aparelho de som da minha época, com rádio, gravador (fita-cassete) e toca-discos!!! 3 em 1? Fala sério! O filho que também é pai eu até conseguia abstrair, mas quando entrava o tal do Espírito Santo, o caldo entornava. Na minha cabeça lógico-racional, essa era a parte mais complicada de entender. Será que essa minha dúvida teria sido sanada se eu tivesse frequentado o tal curso preparatório de catecismo? Não tenho certeza, pois nenhum dos meus amiguinhos que fizeram a primeira comunhão conseguiram me explicar o racional por trás desses três personagens que, na verdade, constituem um só. Alguém se habilita?

Bem, se a minha total ignorância sobre os temas religiosos, acrescida de uma boa dose de ousadia infanto-juvenil nas questões sobre os rituais católicos, me transformou numa “persona non grata” nos encontros familiares – aquelas delícias de reuniões com a parte da família que a gente não vê há séculos e que só não terminam em atos de violência física pelo nível de disfarce e hipocrisia dos participantes, com atuações que deixariam Meryl Streep vermelhinha de vergonha – felizmente, ela não me impediu de acreditar em Deus. Até porque uma coisa é Deus e outra, bem diferente, é aquilo que nós, humanos, fazemos com ele. Assim como tenho certeza de que se Marx estivesse vivo, ele certamente não seria marxista. Não mesmo.

Sim, sou muito crítica e de difícil de convencimento – você já viu aquariano aceitar alguma regra sem questionar? – mas nunca consegui me convencer de que não haveria algo mais. Por exemplo, você nunca teve aquele dia de cão, com mil reuniões enfadonhas e de repente, ao olhar na janela da sala, você se pega de boca aberta ao ver um sol se pôr, enorme, lindo, transformando o céu em vários tons de vermelho, laranja e lilás, nessa São Paulo tão cinza? Ou quando você acorda numa senhora ressaca, depois de levar o maior “pé na bunda” da história da humanidade, mas o dia insiste em nascer lindo, aquele céu azul de brigadeiro, sem nuvens, que parece jogar na nossa cara: deixa essa tristeza pra lá, pois o mundo, minha querida, não começa nem termina em você. Isso só pode ser coisa do divino.  E essa tal de paixão? Vocês já se perguntaram por que raios a gente cai de quatro por uma pessoa que, muitas vezes, não tem nada, absolutamente nada, a ver conosco? Isso tem lógica? Claro que não. Coincidência? Não mesmo, pois como diria Einstein, Deus não joga dados. Ele sabe muito bem o que está fazendo. E a gente finge que se vale do tal do livre arbítrio…

Mas eu também sei que, muitas vezes, pode ser difícil acreditar na existência dele. Principalmente em momentos como agora, com fundamentalistas radicais tomando o poder novamente e pessoas caindo, literalmente, do céu, e outras assistindo a tudo isso como mero espectadores. Onde estava Deus nesse momento? Onde estava Deus durante os inúmeros genocídios que a humanidade já vivenciou – e cometeu? E não falo apenas do holocausto, da morte dos judeus na segunda guerra, mas de Ruanda, Somália, Servia e tantos outros. Onde estava Deus enquanto gerações de negros africanos eram escravizados na América? Ou mais especificamente aqui, no Brasil? Ou pior: Onde está Deus quando permite que milhões de pessoas morram de fome? Onde?

Uma das minhas filhas não acredita em Deus. Quando eu perguntei a ela o porquê da sua descrença, ela me disse: “porque durante anos, enquanto eu estava no abrigo, eu pedi a Deus que fizesse meu avô arranjar um emprego, largar as drogas e querer ficar comigo novamente. E isso nunca aconteceu. Ele me abandonou e não quis mais saber de mim.” Posso culpá-la por não acreditar? Posso forçá-la a mudar de ideia? Com que argumento?

Para mim, foi muito mais fácil acreditar nele. Era só olhar em volta com carinho e vê-lo ali, tão pertinho, num abraço do meu pai ou até mesmo numa bronca da minha mãe. Mas esse Deus é bastante ardiloso. E, às vezes, se esconde em lugares que a gente nem imagina. Quem sabe um dia a minha filha o encontre. E perceba que lá no fundo desse abandono do seu avô talvez esteja um Deus que soube sair de cena para que ela pudesse ser livre e feliz. Haveria ato mais divino?

*

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.

Um comentário em “Onde está Deus?

  1. divertido. delicado. desafiador. Em tempos de tantos desalentos, está cada vez mais difícil acreditar… Mas me deixo ficar embevecida com tantas coisas simples e lindas que desfilam diante do meu olhar a cada dia, a cada dia que acordo e sinto em mim o milagre da vida ao respirar. beijo, querida! 🌻

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